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Sonhos de uma noite de quarentena

René Magritte - The Enchanted domain

Projeto

Decidir qual linguagem iríamos trabalhar neste projeto não foi problema. Precisávamos, então, de um material poético para impulsionar o trabalho prático, mas não sabíamos qual.

Após assistir ao filme Sonhos, de Akira Kurosawa, tivemos uma ideia. Na obra, Kurosawa cria oito episódios a partir de sonhos e pesadelos que teve durante sua vida. Assim, o fantástico está muito presente: um homem entra dentro de um quadro de Van Gogh e conhece o pintor; um soldado conversa com todo seu batalhão morto na guerra; e um menino presencia os pessegueiros cortados de seu jardim ganharem vida. Nada é impossível nos sonhos. Pensamos em fazer algo na mesma linha, porém utilizando o teatro.

Mas esse universo não foi apenas escolhido por nós pelo simples fato de gostarmos do filme de Kurosawa. Os sonhos carregam em si características intrínsecas ao Teatro de Animação. Parece-nos que o Teatro de Animação pode ser universal, no que diz respeito a linguagem. Aqui não precisamos de grandes textos e grandes monólogos, as imagens dão conta completamente de transmitir algo. Freud faz uma observação similar em relação aos sonhos:

“De acordo com Schleiermacher (1862, p. 351), o que caracteriza o estado de vigília é o fato de que a atividade do pensar ocorre em conceitos e não em imagens. Já os sonhos pensam essencialmente por meio de imagens e, com a aproximação do sono, é possível observar como, à medida que as atividades voluntárias se tornam mais difíceis, surgem representações involuntárias, todas elas se enquadrando na categoria de imagens.” (A Interpretação dos Sonhos, Freud, pg 64).

E os sonhos são, segundo Freud, a porta para o inconsciente. Então nada mais justo que trabalhar sonhos com o Teatro de Animação. Philippe Genty afirma:

“A marionete possui a faculdade espantosa de tocar o público em dois níveis. No nível do consciente, é percebida como uma metáfora, mas igualmente no nível do inconsciente.” E completa: “A marionete possui, pois, o poder de abrir uma portinha para o nosso subconsciente.” (Móin-Móin v. 1, n. 05 (2008))

Um boneco pode voar, pegar fogo, perder um membro e mesmo assim continuar vivendo e fazendo parte de uma narrativa, ou seja, podemos replicar tudo o que acontece num sonho, por mais extraordinário que pareça, com um boneco. A lógica e o tempo a que estamos acostumados enquanto estamos acordados se esvai, dando lugar a um teatro sem as amarras dos limites corporais e conscientes. Teatro de Animação e sonhos se convergem e se cruzam em inúmeros aspectos, o que tornou a temática tão interessante para a nossa pesquisa.

Excerto retirado do trabalho de conclusão de curso de Carolina Borges e Luana Pantaleoni

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