Cia Teatro Lumbra

Cia Teatro Lumbra

Sobre

“A Cia Teatro Lumbra é um grupo organizado de encenadores teatrais e artistas, sediados na capital do estado brasileiro do Rio Grande do Sul, na cidade de Porto Alegre. Criada e coordenada pelo pesquisador, cenógrafo e ator/bonequeiro Alexandre Fávero, desde o ano de 2000, desenvolve, permanentemente, a pesquisa e o experimentalismo avançado da dramaturgia do teatro de animação. As montagens de espetáculos da Companhia e seus projetos de difusão são sempre associados aos temas da cultura brasileira e ao experimentalismo das linguagens expressivas dos mais distintos gêneros do teatro de animação. No repertório da Companhia é possível perceber a fusão de diferentes conceitos estéticos de arte, combinadas a um aprofundamento científico, filosófico, psicológico e derivando ao sobrenatural e ao metafísico, tornando cada espetáculo uma experiência singular ao espectador, seja criança ou adulto. O resultado dessas atividades teatrais promovidas e desenvolvidas pela Companhia Teatro Lumbra, nas inúmeras temporadas e participações em festivais do gênero, têm possibilitado uma abrangência cada vez maior e mais expressiva de público e também nos mais diferentes meios de comunicação e mídias. Nessa dinâmica de criar e desconstruir conceitos, nas suas obras de arte, a Companhia tem aperfeiçoado suas tecnologias alternativas e seu método de trabalho artesanal, transformando ideias em espetáculos, realizando cursos de teatro de animação, projetando sombras nas telas de cinema, realizando filmes, vídeos, shows musicais, demonstrações, prestando assessorias e principalmente ousando nas novas experiências.
A equipe da Cia Teatro Lumbra entende que, na medida em que avança em direção a novas descobertas, está construindo e colaborando com a existência da arte no país, projetando a nossa riqueza cultural para o mundo e tornando o trabalho diário uma ação dinâmica, permanente e genuinamente brasileira.”

Entrevista

Todas as perguntas foram formuladas por Luana Pantaleoni e respondidas por escrito por Alexandre Fávero, Diretor da Cia Teatro Lumbra. 

junho/2020

Vocês estão em processo no momento? Se sim, como?

 

Processo criativo? Sim. Estou com quatro projetos em andamento. Direção e montagem. Cada um deles é conduzido de uma maneira. Três estão parados na criação dos conceitos e um (em co produção com a Argentina) está em andamento, à distância, em processo de criação de canções, trilha sonora, imagens, figuras, iluminação, cenografia e roteiro. Sem data para treinamento e ensaios.

 

Como começa um processo criativo? 

 

Cada projeto é uma metodologia. Quando sou convidado para dirigir ou criar, parte de uma ideia do cliente. Quando o ponto de partida é pessoal, investigo o tema, o assunto, faço múltiplas relações e associações com as artes, a filosofia, a psicologia, a história e vou construindo um universo simbólico próprio sobre o tema, o personagem, os ambientes, etc. Na recente montagem da Cia Teatro Lumbra (Criaturas da Literatura) encenamos 6 histórias clássicas com menos de 10 minutos de duração cada uma. O desafio foi a síntese imagética das histórias. Cada obra possui o seu desafio próprio e exige alternativas de linguagem, técnica e entrega.

Quais são os disparadores iniciais de um processo criativo?

É o universo das imagens, que geram textos e depois desenhos estratégicos.

Quando o tipo de manipulação é escolhido? E como?

Não considero que exista um único tipo ou momento. No caso dessa nova obra que estou trabalhando com mais afinco, a manipulação é uma variante que inclui figuras, focos de luz, telas e cenários. Isso inicia no planejamento, nos desenhos, depois na construção e desemboca nos ensaios de improvisação, ensaios técnicos e de marcação.

Como a temática a ser trabalhada é escolhida? Quem faz esta escolha?

Respondi anteriormente. Se é uma encomenda, uma contratação, vem de cima para baixo e é adaptada para as mais diferentes situações. Se é uma escolha pessoal, leva em conta o momento que vivemos, os desejos internos... um novo projeto é para a primeira infância, com a temática do nascimento. Pais e bebês vão ter uma experiência juntos, em um ambiente imersivo que simula a barrigada da mãe e o parto. É uma junção entre forma e conteúdo.

Quais são os meios de sobrevivência do teatro de animação no Brasil?

Essa pergunta pode ter várias respostas. Meios de sobrevivência econômica baseiam-se, no meu ponto de vista e experiência profissional, através da continuidade e da qualidade criativa para aprofundar as pesquisas, as produções e a relevância nos conteúdos. No Brasil existem os artistas tradicionais e os contemporâneos. Cada nicho depende de articulações e atuações distintas. De maneira geral, a gestão pública, as universidades e a iniciativa privada podem apoiar muito a sobrevivência dessa arte, mas são os artistas e seus núcleos que fazem com que o desenvolvimento desse gênero continue se comunicando e inspirando crianças e adultos.

Qual é a importância do Teatro de Animação hoje no Brasil?

É a poética ligada à criatividade que envolve as diferentes linguagens desse gênero. Somos um país gigante, continental. Cada lugar e povo tem suas características individuais e isso nos faz um país de alta capacidade produtiva no que diz respeito à uso de materiais, inspirações, temas, áreas de atuação e conhecimentos transversais. O teatro de animação alcança um nível profundo de significados e simbologias que estão à altura da nossa diversidade cultural.

Como o Teatro de Animação resiste em tempos de isolamento social?

Como todas as artes e áreas do conhecimento, esse momento é de um olhar cauteloso e diferenciado para dentro, para si e para o outro. Cada forma e estilo se altera, se adapta, morre e ressurge. É necessário essa mudança. O isolamento social, por reduzir nossas atividades, só acelerou esse processo interno. Resiste por sua relevância natural no artista e nas demandas que vão e vem.

O Teatro de Animação sofrerá mudanças para continuar vivendo num mundo pós-pandemia? Se sim, quais?

Já está sofrendo. Não é simples afirmar quais e como, pois estamos em processo. Creio que estamos com mais tempo e por isso, difundindo nomes, processos, saberes e abrindo espaços para o pensar e compartilhar por meio da internet. Isso acontecia, mas agora é uma rede mais visível e ágil. Existe uma programação para acompanhar, para encontrar e se perder. Isso vai influenciar nas práticas e na teoria. Muita coisa não é e nem será como antes. Estamos observando esse momento novo e apreendendo a aprender.

Qual é a sua interpretação de um sonho? Você acha que os sonhos também são uma realidade?

 

Sonho muito. Lembro de muitas visões e ações das narrativas do sonhos. Exercito a interpretação de sonhos como uma espécie de decodificação de roteiros. Como um crítico de filmes. Podemos fazer essa pergunta para um filme? É uma realidade? De certa forma um sonho e um filme são compostos por uma sucessão desconhecida de experiências reais ou não, que se fundem para formar outra coisa que será interpretada, lida, julgada. Essa mistura faz do sonho aquilo que ele é. Mistério e oráculo ao mesmo tempo.

Seu trabalho é influenciado por sonhos? Ou, você trabalha a partir dos seus sonhos?

Minha vida e meu trabalho são influenciados pelos sonhos. Não crio diretamente a partir de um sonho, mas lembro de sonhos de infância. Provavelmente a influência seja mais no campo do inconsciente.

Quais são suas referências de artistas que trabalham com sonhos?

Não tenho certeza de quais artistas trabalham com sonhos. De maneira geral o surrealismo é um estilo que me encanta muito e se aproxima dessa poética onírica.

Como trabalhar com sonhos na arte?

Creio que são projeções que precisam ser processadas, convertidas e adaptadas aos processos criativos. Assim como as drogas podem abrir portas da percepção, os sonhos também. É um exercício e um treinamento que merece atenção e paciência para se transformar em obras compartilhadas.