Pia Fraus

Pia Fraus

Sobre

​"Pia Fraus do Latim, 'Uma mentira contada com boas intenções'. Nos seus 35 anos de existência, a Pia Fraus produziu dezenas de espetáculos, apresentando-se em 24 países diferentes nos principais festivais nacionais e internacionais de teatro. Da diversidade de formação de seus componentes (teatro, dança, teatro de bonecos e de máscaras, circo e artes plásticas) surgiu a linha de trabalho da companhia: desenvolver uma linguagem que aprimorasse dramaticamente cada uma destas áreas e as integrasse, consolidando um repertório com características muito particulares, buscando o aprofundamento, pesquisa e a integração dos recursos do teatro de animação aos de outras linguagens. A não-linearidade, o pouco uso da palavra, a força nas imagens, a relação boneco-ator são os elementos que caracterizam os trabalhos da companhia. Nos seus 35 anos de existência, a Pia Fraus produziu dezenas de espetáculos, apresentando-se em 24 países diferentes nos principais festivais nacionais e internacionais de teatro.”

Entrevista

Todas as perguntas foram formuladas por Luana Pantaleoni e respondidas por escrito por Betto Andreeta, fundador, ator e diretor da Cia Pia Fraus.

junho/2020

Vocês estão em processo no momento? Se sim, como?

 

Sim. Estamos no processo de transformar nossos espetáculos em linguagem teatral para a linguagem de vídeo. Participando de concorrências e entendendo essa transformação para essa nova linguagem.

Como começa um processo criativo? 

 

Acredito que sejam de duas maneiras. Uma é sobre demanda: Recebemos essa demanda, é o que o mercado, as instituições estão pedindo, atuação em vídeo. Então a demanda acaba se tornando um disparador de processo criativo. Uma demanda de "mercado", digamos assim. E o outro disparador, são inspirações. Nenhuma inspiração é gratuita. São sempre baseadas em alguma informação que você recebe, ou no acúmulo dessas informações. Mas não acredito na inspiração por si só. Há sempre uma motivação que leva à inspiração.

Quais são os disparadores iniciais de um processo criativo?

Como disse acima, acredito que haja dois grandes disparadores: Demanda e Inspiração.

Quando o tipo de manipulação é escolhido? E como?

Eu acho que a Pia Fraus não é um grupo de teatro de bonecos muito clássico. Ela é um grupo de teatro que sempre faz teatro com bonecos. Acredito que seja diferente o olhar. Então a gente nunca escolhe um tipo de manipulação. Ela se apresenta diante da necessidade. E muitas vezes a gente cria manipulações, cria tipos de manipulação. Então acredito que a Pia Fraus seja um grupo meio "camaleônico", não existe, racionalmente, uma opção por uma manipulação. Existe a manipulação que se apresenta para resolver aquela questão colocada no processo criativo.

Como a temática a ser trabalhada é escolhida? Quem faz esta escolha?

A temática escolhida, no fundo, acaba sendo uma decisão minha. E é escolhida por motivos muito diversos. Como grupo, temos uma certa linha de ação, de escolhas dramatúrgicas. São feitas a partir de crenças, no sentido de, identificação com algumas situações sociedade. A preservação do meio ambiente nos é muito caro, então tentamos olhar para esse assunto de várias maneiras diferentes, não sendo só didáticos, mas também sendo lúdicos, sendo um dos grandes temas do grupo. A relação do ser humano com o ambiente, respeito com a natureza e com os animais, é um dos grandes focos do grupo. Mas outra coisa é alegria por si só. Esse espírito circense que a gente acha também muito importante e positivo. Depois, tem os temas adultos, que já fizemos vários espetáculos, que vai de momentos de leitura, do que estamos nos influenciando, então já nos interessaram os clássicos, como Frankenstein, Dom Quixote, Antígona, já nos interessaram uma produção mais "contemporânea", apesar de já ter falecido, como Nelson Rodrigues. Então no universo adulto, nossa dramaturgia é muito ligada aos clássicos, Shakespeare, Guimarães Rosa, temos essa vontade de adaptação de clássicos, trazendo para uma linguagem mais atual.

Quais são os meios de sobrevivência do teatro de animação no Brasil?

São os meios de sobrevivência do teatro no Brasil. É uma mistura de competência de linguagem artística com competência administrativa, já que é um mercado muito difícil, tem pouca verba pública, então é preciso ter a competência de disputar em pé de igualdade as verbas públicas, então a partir daí é preciso ter uma certa militância no ambiente do teatro e uma ideia de linguagem interessante. E a relação com o mercado, com as instituições, SESC, SESI, escolas. A gente se adéqua ao mercado e tenta pequenas inovações, trabalhando também com outras leis de incentivo e a Pia Fraus também tem uma tentativa de espaço cultural que possa ter uma viabilidade comercial sem as instituições. Acredito que cada grupo estabelece a sua tática, mas basicamente a grande tática é perseverança, e o trabalho contínuo.

Qual é a importância do Teatro de Animação hoje no Brasil?

Acredito que seja a mesma que o teatro.. Não vejo o teatro de animação com um importância específica. Ele é tão importante quanto a dança, quanto a ópera, o circo, o teatro. Ele é uma das manifestações artísticas , todas elas tem o seu valor, todas muito antigas, muito relevante para nós nos dias de hoje. Relevância que a arte tem a para o ser humano. Ela nos ajuda a ser o que consideremos hoje, humano: solidário, participativo, lúcido, construtivo... Tudo isso a arte ajuda muito, faz parte, o ser humano chegou até aqui, com todas as ressalvas, defeitos e problemas, mas em grande parte, pela função da arte. Ela exerce uma função de crescimento da condição humana.

Como o Teatro de Animação resiste em tempos de isolamento social?

Como toda as outras linguagens e manifestações artísticas. Tentando se reinventar. Não, não se reinventar, se adaptar a esse momento que é passageiro. Eu discordo dessa nova realidade. Esse termo me entristece, me irrita. Não acredito que exista uma nova realidade e sim uma realidade momentânea que estamos passando. Acho que essa fase não tem o poder de alteração das relações, como vem sendo dito. Eu discordo. Simplesmente o teatro de bonecos, como todas as artes, está tentando passar por esse momento turbulento, de alguma maneira, basicamente se reinventando via vídeo, aparatos eletrônicos, virtualmente. Sendo o que nos cabe em tempos de isolamento social.

O Teatro de Animação sofrerá mudanças para continuar vivendo num mundo pós-pandemia? Se sim, quais?

Não acredito que o teatro de bonecos terá uma grande mudança estrutural. Como o teatro. É um momento circunstancial que estamos passando e não acho tão potente para estabelecer mudanças significativas no modo como conduzimos nossas vidas. Talvez um pouco menos de afetividade, mas que não impactaria na vida do teatro como um todo, como um fazer. Posso estar equivocado. A história dirá

Qual é a sua interpretação de um sonho? Você acha que os sonhos também são uma realidade?

 

A minha interpretação do sonho é que é muito gosto quando temos um sonho bom e muito terrível quando temos um sonho ruim. Não sou um psicólogo, não sou um intendido do fato, não sou um estudioso do que os sonhos significam na psique humana. Então eu realmente tenho muito pouco a dizer sobre isso. Eu não sou uma pessoa que se inspira com sonho. Não acordo inspirado. Porque acho que o sonho vai num lugar que reflete um pouco da sua vida, seu inconsciente, seus conceitos. Realmente eu sou leigo em matéria de sonhos, não é um assunto de super interesse meu, e nem tão relevante para nosso trabalho artístico.

Seu trabalho é influenciado por sonhos? Ou, você trabalha a partir dos seus sonhos?

Não é uma coisa em que eu foque. Não foco porque não sinto. As pessoas tem relações muito diferentes com vários fatos. Mesmo que nos acorram a todos, os sonhos são de todos, mas realmente acho que existem pessoas mais sensíveis a esse tema dos sonhos, talvez que se impacte mais, sinta mais. Não sou uma pessoa que guarda sonhos, que comente sobre sonhos. Dificilmente me lembro dos sonhos. As vezes sim, são mais impactantes, mas não é presente a minha relação com o sonho, principalmente no mundo artístico, no meu mundo de produção artística, ele realmente não tem esse peso todo. Ele é uma coisa boa na minha vida, mas não os reconheço como influência da minha obra e também não consigo reconhecer um artista que sonha, quais são os resultados dos sonhos em outros artistas, eles teriam que me contar.

Quais são suas referências de artistas que trabalham com sonhos?

Na literatura, eu não sei. Sei que a Mary Shelley, que escreveu Frankenstein sonhou com essa história. Mas ela estava em um ambiente que era uma competição literária, em um castelo, isolada. Então, eu realmente não sei o que são os sonhos. Não tenho muito como opinar sobre isso.

Como trabalhar com sonhos na arte?

Nunca foi uma questão que me preenche, que faça parte do meu universo de preocupações artísticas. Acredito que tenha que ser trabalhado da maneira que se consegue, como se deseja, com a importância que se dá aos sonhos.