Sobrevento

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Sobre

“so.bre.ven.to
s.m. (Náut.) Ímpeto repentino do vento,
o qual transtorna a marcha da embarcação.
(fig.) Surpresa, acontecimento inesperado
que transtorna a boa ordem das coisas.
(Do lat.: superventus = vinda inesperada.)"

Formado em novembro de 1986, o GRUPO SOBREVENTO é um grupo profissional de Teatro que mantém um repertório de espetáculos e que se dedica à pesquisa, teórica e prática, da animação de bonecos, formas e objetos. Desde a sua fundação, o Grupo mantém um trabalho estável e ininterrupto e tem-se apresentado em mais de uma centena de cidades de 23 estados brasileiros.

Os espetáculos do Grupo são muito diferentes entre si, quer seja na temática, quer seja na forma, na técnica de animação empregada, no espaço a que se destina ou no público a que se dirige. O Grupo tem recebido Prêmios ou indicações para Prêmios da importância do Mambembe (Funarte/Ministério da Cultura), do Coca- Cola, do Shell, do APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) e do Maria Mazzetti (RioArte), sendo sempre posicionado pela crítica especializada entre os melhores de suas temporadas. Por duas vezes consecutivas, em 1994 e em 1995, o SOBREVENTO recebeu do Ministério da Cultura o Prêmio Estímulo, pelo conjunto dos seus trabalhos e “pela sua contribuição ao panorama das Artes e da Cultura do país”.

Além das apresentações de seus espetáculos, o SOBREVENTO desenvolve diversas atividades no campo do Teatro de Bonecos e de Animação, como a realização de cursos, oficinas, palestras e mesas-redondas, tanto no Brasil como no exterior. Realizou, também, duas Mostras Internacionais de Teatro de Animação no Rio de Janeiro - Rio Bonecos 92 e Mostra Maria Mazzetti 95 -, foi diretor artístico do 1º Festival Internacional de Teatro do Rio de Janeiro - Rio Cena Contemporânea -, em 1996, e organizador da Mostra Nacional de Teatro de Animação O Teatro de Bonecos e a Música, em 2001, da 1ª Mostra RioArte de Bonecos - Grandes Mestres do Teatro de Bonecos Mundial no Rio, dos Festivais Fantoches nas Praças e Praça dos Bonecos, foi curador dos Festivais SESI Bonecos do Brasil e do Mundo e do Festival Internacionacional de Teatro de Objetos - FITO. Também realiza os Festivais Primeiro Teatro e Primeiro Olhar, criados em parceria com a Cia. La Casa Icierta (Brasília / Madri) e dedicados ao Teatro para Bebês. Além dos Festivais que organizou e dirigiu, foi responsável pela vinda e pela circulação pelo país de diversas companhias estrangeiras de Teatro de Bonecos.

Ao longo da sua carreira, o SOBREVENTO criou vários espetáculos, a maioria dos quais permanecem em repertório. Dirigido, ainda hoje, por Luiz André Cherubini e Sandra Vargas, com a presença constante de Miguel Vellinho, seus três fundadores; e tendo incorporado a seu núcleo artístico Anderson Gangla, Maurício Santana, Agnaldo Souza e Marcelo Amaral, entre outros, o GRUPO SOBREVENTO é reconhecido, nacional e internacionalmente, como um dos maiores especialistas brasileiros em Teatro de Animação e uma das principais Companhias estáveis de Teatro do Brasil”.

Entrevista

Todas as perguntas foram formuladas por Luana Pantaleoni e respondidas por escrito por Luiz André Cherubini, diretor do Sobrevento.

junho/2020

Vocês estão em processo no momento? Se sim, como?

 

Sim. Recentemente, tivemos um projeto aprovado pelo Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo. Estamos reunindo ideias, lendo, estudando, participando de reunioes, movimentos, grupos de discussão, lives, estamos em contato com artistas colaboradores de diferentes países (Espanha, Itália, Irã, China), a fim de amadurecer o nosso projeto e nos municiar de informações e outros pontos de vista.

Como começa um processo criativo?

 

No nosso caso - por sermos um grupo de repertório, que faz um grande número de atividades e apresentações - no decorrer de outros processos. Desta vez, nasceu de nosso foco recente na pesquisa do Teatro de Bonecos popular e do Teatro de Objetos, com ênfase em uma abordagem que chamamos de "documental". Todos estes são temas que temos pesquisado, de forma recorrente. Este ano, em fevereiro, estivemos na Índia apresentando um espetáculo de Teatro de Bonecos Popular de nosso repertório. Nos últimos dez anos, pelo menos, temos nos concentrado na pesquisa do Teatro de Objetos e mais recentemente, há uns 4 anos, no Teatro de Objetos Documental. Nosso projeto baseia-se no cruzamento com a Arte persa, com o Teatro iraniano. Estamos em contato com artistas daquele país - onde já nos apresentamos -, em discussões e estudos comuns. Cruzamentos insuspeitos de coisas que vivemos e pelas quais nos interessamos são um fator de motivação, provocação, criatividade nos nossos processos. Neste caso juntar Teatro de Bonecos Popular e tradicional, Teatro de Objetos Documental contemporâneo e Pérsia - também associado ao momento político, econômico e social que vivemos - provoca um projeto original, desafiador e entusiasmante. 

Quais são os disparadores iniciais de um processo criativo?

Acho que está respondido na pergunta anterior, mas há momentos de plantar e momentos de colher. De vez em quando, todas as coisas que temos feito se precipitam na necessidade urgente de uma nova criação... é como se todas as coisas, muitas ideias, se reunissem, se congregassem. Somam-se então desejos criativos e de contato com o público a necessidades também profissionais e oportunidades de editais ou chamamentos. Assim, formalizamos projetos que serão realizados quando se dê a ocasião. Até então, vamos aprofundando nossas percepções, lendo, estudando, assistindo a espetáculos e participando de grupos de discussão e de estudo.

Quando o tipo de manipulação é escolhido? E como?

Às vezes de antemão, às vezes mais tarde. Acreditamos que diferentes procesos e diferentes pontos de partida geram espetáculos, resultados, encontros diferentes. Podemos partir de uma pesquisa técnica da manipulação ou incorporá-la em um ponto mais avançado do processo, partindo de texto, música, improvisações, construções cênicas ou plásticas, intercâmbios, oficinas... muitas coisas. Manipulação não é tudo e, às vezes, até a rejeitamos. Como nas nossas experiências mais recentes com o Teatro de Objetos. Temos espetácuos virtuosísticos e espetáculos que nasceram para ser de bonecos e deixaram de sê-lo, porque os bonecos não nos ajudavam no que buscávamos ou queríamos dizer (coisa que também muda, ao longo do processo). Teatro de Animação é mais que Teatro de Bonecos e Teatro de Bonecos é mais que manipulação.

Como a temática a ser trabalhada é escolhida? Quem faz esta escolha?

A temática nem sempre é importante. Houve momentos em que queríamos abordar um tema, houve momentos em que o tema não foi preocupação, concentrando-nos em dramaturgia, técnica teatral... Muitas vezes o tema é só uma simplificação de toda a complexidade teatral. 

Quais são os meios de sobrevivência do teatro de animação no Brasil?

Programas públicos, financiado por organizações públicas e privadas, de fomento à criação, circulação, aperfeiçoamento, multiplicação, difusão; contratação de apresentações; venda de ingressos; oficinas e cursos. Além disso, outras atividades profissionais que terminam sustentando alguns artistas, financiamentos solidários (vaquinhas), artesanato, etc.

Qual é a importância do Teatro de Animação hoje no Brasil?

O Teatro de Animação do nosso país mistura contemporaneidade e tradição, erudição e popularidade, preservação e inovação. E ele reflete a alma de nosso povo, as nossas idiossincrasias, repousando em algum lugar em nossos corpos até que desperte esse sentimento atávico de conexão em nós, entre nós e de nós com o mundo.

Como o Teatro de Animação resiste em tempos de isolamento social?

Com a esperança de voltar às ruas e aos Teatros, quando o isolamento passar e a prudência permitir.

O Teatro de Animação sofrerá mudanças para continuar vivendo num mundo pós-pandemia? Se sim, quais?

Ainda não sabemos. Temos poucas informações para arriscar previsões. Supomos que o Teatro começará pela rua, eventualmente pelas escolas também. Talvez o Teatro seja a recuperação do mundo que tínhamos. Talvez seja a invenção de novos encontros com o público. Já saberemos.

Qual é a sua interpretação de um sonho? Você acha que os sonhos também são uma realidade?

 

Todo artista sonha um mundo melhor e sonha mudar o mundo, acreditando na capacidade de sua Arte e movido pela própria transformação que essa Arte provocou em si.

Seu trabalho é influenciado por sonhos? Ou, você trabalha a partir dos seus sonhos?

Não em um sentido estrito. Trabalhamos a partir de nossos desejos e esperanças, em busca de transformar o mundo, transformando as pessoas.

Quais são suas referências de artistas que trabalham com sonhos?

Philippe Genty, os surrealistas...

Como trabalhar com sonhos na arte?

Acho que cada artista tem o seu modo de trabalhar aquilo que o move e acho que é isto o que faz a Arte: menos o sonhos do que o seu modo de trabalhá-los.