Teatro Didático da UNESP

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Sobre

“O Teatro Didático da Unesp é uma companhia teatral que surge como um projeto de extensão universitária vinculado à Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho - UNESP, no ano de 1993. A partir de 2008, o grupo passa a ser dirigido e coordenado por Wagner Cintra, mudando os rumos de sua pesquisa, se dedicando a linguagens que atuem no hibridismo do teatro com as artes visuais. Assim, o grupo elege o universo do Teatro Visual como linguagem central do seu processo criativo. Atualmente seus integrantes são Wagner Cintra (Diretor e Coordenador), Elis Regina, Igor Erbert e Salomão Pôlegar.

O grupo que nasce vinculado à Unesp transpôs os portões da universidade e atualmente está inserido no contexto teatral profissional, não somente do Estado de São Paulo, mas no próprio contexto do teatro brasileiro e internacional, sobremodo no que diz respeito ao universo do Teatro de Animação. Premiado nacional e internacionalmente, nos últimos quatro anos o grupo já se apresentou em diversos estados do Brasil além de festivais no México, Portugal e República Tcheca. Seus últimos espetáculos foram desenvolvidos em parceria com o Teatro de Brancaleone, e pela contribuição prática e teórica na área do teatro de formas animadas, os grupos tornaram-se referência nacional e internacional nessa linguagem, sendo o Teatro Didático da Unesp e o Teatro de Brancaleone os únicos grupos brasileiros reconhecidamente a ter o Teatro Visual como linguagem de pesquisa.”

Entrevista

Todas as perguntas foram formuladas por Luana Pantaleoni e respondidas por escrito pelo grupo.

junho/2020

Vocês estão em processo no momento? Se sim, como?

 

No momento, devido a pandemia de Covid-19, não estamos com nenhuma atividade, presencial ou a distância. Nosso processo de produção de um novo espetáculo e de circulação dos existentes estão pausados.

Como começa um processo criativo?

 

Isso vai depender muito da linguagem que está se desenvolvendo e a poética escolhida pelo grupo durante seu percurso. No caso do Teatro Didático da Unesp, temos o teatro visual como nossa base de pesquisa e experimentações. Normalmente partimos de um tema disparador, presente em textos, poemas, imagens etc., e a partir deste tema criamos cenas com materiais diversos que pensamos dialogar com o conteúdo que desejamos trazer.

Quais são os disparadores iniciais de um processo criativo?

Nos últimos trabalhos desenvolvidos pelo grupo, o disparador inicial foram poesias. Em O Rio, o disparador inicial foi o livro de João Cabral de Melo Neto, Pauliceia Desvairada foi inspirada na obra homônima de Mário de Andrade e Judas: Piedade para os Ratos em toda a obra poética do paraibano Augusto dos Anjos. Em ambos os espetáculos, o grupo se aprofundou nesses escritos e a partir daí experimentou diversas cenas que pudessem ter a ver com o sentido daquela poesia. Ao longo do processo, essas cenas vão sendo substituídas por outras até que se monte o espetáculo como um todo.

Quando o tipo de manipulação é escolhido? E como?

Os tipos de manipulações são muito variados, isso vai depender muito do material que está sendo utilizado, forma, peso, textura entre outros atributos que diferenciam o seu manuseio. O grupo não se prende a uma técnica específica, mas as escolhe para cada cena específica. Por isso se faz necessário experimentações da matéria escolhida, entendendo suas dilatações, compressões e características que possam favorecer certo domínio sobre a matéria, para logo em seguida poder dar-lhe forma, textura, tamanho, para a criação de imagens que irão compor um espetáculo. A técnica mais constante neste processo é a do Bunraku japonês, adaptada para pequenos bonecos de papel e fita crepe.

Como a temática a ser trabalhada é escolhida? Quem faz esta escolha?

A temática escolhida no início do processo de criação do espetáculo vem do diretor do grupo, que compartilha os seus desejos para o grupo desenvolver as cenas.

Quais são os meios de sobrevivência do teatro de animação no Brasil?

Inicialmente, os meios são os mesmos de um grupo de teatro que tem o ator como foco principal. O grupo foca principalmente em editais públicos e bolsas de estudo para seus integrantes. As apresentações, por escolha, são gratuitas a seus consumidores finais, o que limita em certa medida a expansão do seu fazer teatral, pois as subvenções financeiras públicas e privadas são limitadas. De modo amplo, o teatro de formas animadas ainda sofre preconceito por parte daqueles que consomem espetáculos, sendo muitas vezes considerados de menor qualidade, ou somente infantil (que não é o nosso caso até o momento). Esses agravantes tornam esse tipo de arte menos procurada do que outras, dificultando em parte sua sobrevivência.

Qual é a importância do Teatro de Animação hoje no Brasil?

Como qualquer outra vertente das artes cênicas, o teatro de formas animadas tem sua importância na construção cultural e econômica brasileira. Existem inúmeros tipos de técnicas e bonecos que abarcam muitas regiões específicas no Brasil, e que tem sua importância no desenvolvimento daquela localidade, desde os mais populares, como os bonecos de mamulengo, a linguagens que exigem mais recursos e aparelhagem cênicos, como o teatro de objetos e teatro visual. Apesar dessas características sociais, ele ainda é mais restrito que o teatro de atores, não por ser um teatro de difícil acesso, mas que em muitos casos suscita pouco interesse.

Como o Teatro de Animação resiste em tempos de isolamento social?

O Teatro em si não resiste, pois ele é a presença em palco. Mas muitos grupos necessitam desenvolver atividades para manter o seu fazer artístico, e conseguem encontrar alternativas no momento de isolamento social: o desenvolvimento de oficinas on-line, disponibilização de espetáculos para o público, lives de aulas, entrevistas, encontros e na continuidade da parte teórica de seus projetos. Essas atividades são possibilidades de não parar e de divulgar os seus trabalhos, mas que não substituem o fazer teatral.

O Teatro de Animação sofrerá mudanças para continuar vivendo num mundo pós-pandemia? Se sim, quais?

Não só o teatro de formas animadas como toda a sociedade em si sofrerá mudanças. No nosso tratamento diário com o outro, o cotidiano se tornará mais meticuloso em relação aos cuidados que deveremos ter trabalhando em coletivo. Nossa relação com o público está em suspensão, e nesse período de ruptura é o momento de adaptações e reelaborações. Mudanças como a redução da quantidade de público e cuidados com os atores, técnicos e funcionários deverão ocorrer no começo, que ainda pode demorar para acontecer.

Qual é a sua interpretação de um sonho? Você acha que os sonhos também são uma realidade?

Não costumo ter uma interpretação metafórica sobre o sonho. Quando me lembro dele, não procuro por significados em dicionários de sonhos, costumo tentar entendê-los, o do porque eles vieram dessa maneira, ou porque certa pessoa estava ali, mesmo sem vê-la por muito tempo. A ligação que faço é que eles são alimentados pelo que acontece na realidade, por coisas que experienciou, ou vem experienciando, por pessoas que encontrou, e que também fazem parte do seu ciclo momentâneo, claro que tudo isso de uma maneira potencializada e transcendente. (Resposta de Igor)

Seu trabalho é influenciado por sonhos? Ou, você trabalha a partir dos seus sonhos?

Não temos essa premissa de começar uma criação através dos sonhos, o start advém de estudos, pesquisas, artistas e profissionais de variadas áreas que consigam estabelecer conexões com o trabalho que desenvolvemos, mas as inspirações oníricas também acontecem, só que em menor escala, não intencionais, inconscientes às vezes, e são sempre bem vindas.

Quais são suas referências de artistas que trabalham com sonhos?

No momento, consigo lembrar especificamente do Philippe Genty, que desenvolve um trabalho belíssimo de Teatro de Animação relacionado com sonhos.

Como trabalhar com sonhos na arte?

Nós não costumamos trabalhar com este tema específico.